domingo, 13 de abril de 2014

1º Desafio - Bad Dream (escrita por Holly Robin)

Bad Dream escrita por Holly Robin


Sinopse: Ele queria que tudo pudesse ser diferente. A vida não podia ser tão injusta, como poderia decidir pela vida da pessoa que amava em doze horas? Infelizmente, aquele era um dos preços que a guerra cobrava de seus participantes.
Como suplicaria pela vida de seu inimigo?

Classificação: +16
Categorias: Originais 
Gêneros: Angst, Drama, Romance, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Tortura

Capítulos: 1 (1.080 palavras) | Terminada: Sim 
Publicada: 07/10/2013 às 10:28 | Atualizada: 07/10/2013 às 10:28


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Doze horas.
Esse tempo era tudo o que lhe restava. Olhou seu reflexo no espelho do banheiro mais uma vez e cerrou os punhos com força. Aquilo não podia estar acontecendo. Seu amado não podia morrer daquele jeito. Não agora. Muito menos em doze horas.
Ajeitou seu uniforme e respirou fundo. Caminhou até o escritório e desviou sua atenção para a carta aberta em cima da mesa. Sabia muito bem do que se tratava, não iria perder seu tempo lendo-a novamente.
A manhã fria dispersou parte de seus pensamentos, congelando-lhe a alma para o que veria do outro lado do campo de concentração. Não se importava nem um pouco com as continências dos soldados. Pelo contrário, amaldiçoava cada uma, como se tudo não passasse de uma ofensa pessoal. Queria voltar para o escritório e fingir que estava tudo bem.
Algo impossível.
Chegou ao último alojamento. Sempre imaginara aquele lugar sendo destruído em meio às nevascas, ou desativado. O problema é que quando se está em guerra, o que não falta são prisioneiros a serem interrogados. Principalmente torturados, quando valiam alguma informação importante. No geral, serviam mais como mão de obra.
Ao entrar no alojamento deixou todos os seus sentimentos do lado de fora. Agora ele atuaria como o general River, e nada mais do que isso.
Um dos oficiais virou-se e prestou continência. Passou direto por ele e abriu a porta que dava acesso às celas subterrâneas. Ninguém precisava informa-lo onde estava o prisioneiro, mesmo que sua estadia no campo fosse recente. Conhecia as regras melhor do que qualquer um daqueles soldados.
Caminhou a passos lentos, analisando cada cela. Não sentia o menor remorso pelos prisioneiros, não passavam de mão de obra. Pelo menos era isso o que pensava, até parar em frente às grades que o separavam de seu melhor amigo.
E amante.
Era impossível reconhecê-lo. A pele parecia ter se fundido aos ossos, os antes sedosos cabelos vermelhos, agora emplastados de sangue, haviam crescido. O rosto parcialmente engolido pela escuridão era inexpressivo, podendo-se discernir marcas arroxeadas e cortes profundos, aonde o sangue aos poucos ia deixando de escorrer.
Aquele rapaz não era o garoto que conhecera em Moscou há três anos. O jovem de sorriso doce e beijos cálidos. Lembrou-se de cada noite ao seu lado, cada risada, como se fossem momentos únicos. Queria ver seus olhos azul-claros refletindo seu rosto, eram tão vivos… Mas agora tinha receio. Não abriria a cela, ninguém o faria mudar de ideia, como sabia que nenhum dos soldados teria a intenção de fazê-lo.
Agora ele não passava de um prisioneiro de guerra. Um peão do inimigo deixado em campo para morrer. Como soldado, sabia que possuía informações úteis. O problema era que seus subordinados já estavam cansados de torturá-lo durante o último mês, sem obter nada. Tinha doze horas para fazê-lo falar.
Continuou observando-o, e por um segundo quis perguntar o que ele fazia no exército inimigo. Sabia que a resposta era idiota, a mais óbvia de todas. A Alemanha traíra sua pátria, a Rússia já não era mais do interesse do Führer.
Sentiu um frio na espinha ao imaginar seu amado sendo jogado em uma vala, sem a menor identificação. Seu desaparecimento não faria a menor diferença, pois sua família havia morrido em um bombardeio.
Repetiu seu nome mentalmente: Ivan. Não era atraente, mas impunha um pouco de respeito, mesmo para um garoto de traços tão delicados. Ele não deveria ter entrado na guerra, era apenas um garoto.
Na guerra, a única coisa que River perdera fora seu olho esquerdo, quando ainda era um mero soldado. Algo totalmente irrelevante para ele. Ainda era possível encontrar em sua gaveta a bala que havia feito todo o estrago. Agora Ivan... Perderia a vida da forma mais dolorosa possível.
Como um general, ele não podia pensar assim. O Führer necessitava dele. Pertencia à raça ariana, mesmo sendo uma aberração. Aberração. Só porque seu coração batia mais forte por um garoto que há alguns anos nem sabia o que era lutar.
Sentiu-se fraco, mas isso não aliviava em nada o peso de sua escolha. Precisava pensar. Tirá-lo de lá, levá-lo para casa e dizer que tudo ficaria bem, mesmo sabendo que não. Se ao menos fosse capaz de arrancar alguma informação dele, poderia colocá-lo para trabalhar junto aos demais prisioneiros.
Mas no final a câmara de gás o mataria e o transformaria em botão. Estava agindo como um verdadeiro egoísta. Apertou uma das grades da cela com força e olhou para Ivan mais uma vez. Uma de suas mãos estava repousada em seu colo. O sangue seco denunciava a perda de alguns dedos.
“Queria poder fazer algo por você, Ivan. Queria tanto.”
Mas ele podia ajudar. A ideia que lhe sobressaiu à mente acertou-o como uma adaga. Não queria pensar em algo assim. Mesmo vendo-o naquele estado, ele poderia ser salvo. Eram só algumas informações. Era a vida de seu garoto que estava em jogo.
Um jogo que agora só tinha nove horas.
Nove horas de sofrimento. Precisaria daquilo tudo para decidir o que fazer?
**
Caminhou pelo campo de concentração sentindo seu coração mais leve. O peso das escolhas agora não o afligia como antes. O fim da tarde se aproximava, e sob aquele céu avermelhado ele imaginou os sedosos fios do cabelo de Ivan. Uma lufada de ar frio atingiu-lhe o rosto como um soco: precisava voltar à realidade.
Seria perdoado pelas suas escolhas? Talvez, como general, não tivesse agido da melhor forma. Vivia da guerra, sabia o que era o sofrimento dos que sobreviviam ao terror, mas somente os mortos eram capazes de compreender o verdadeiro fim.
Ivan fora o único garoto que conseguira cativá-lo, o único que fazia algo dentro dele arder, o único entre muitas outras coisas que agora eram impossíveis de se numerar.
Esperava ser perdoado. Tudo o que fizera fora por um amor estúpido que era desnecessário para seu âmago. Tão estúpido que o fazia imaginá-lo entre nuvens. Como o jovem que ele havia resgatado dos destroços de um campo de refugiados, alvo dos bombardeios.
Lembrava como se fosse ontem, o garoto recostado à parede tendo em braços um velho urso de pelúcia empoeirado, brinquedo de sua falecida irmã. Jurou protegê-lo daquele dia em diante, mas porque ele fugira alguns anos depois? Precisava tê-lo reencontrado prestes a ser morto?
Aquelas eram perguntas que seria incapaz de responder. Já não faziam mais sentido. Agora tudo o que podia fazer por aquele que partilhara de seu amor era dizer:

“Adeus.”

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