The Final Act escrita por Hairo Rodrigo
Décadas depois ela se viu à frente daquele prédio. Daquele lugar onde aprendera a cantar, onde aprendera a amar e aprendera a temer. O que viveu dentro daquela ópera merecia ser contado em livros ou bradado em versos para todo o mundo ouvir, mas tudo o que lhe restava eram suas memórias.
E uma vontade incontrolável de revivê-las...
E uma vontade incontrolável de revivê-las...
Classificação: Livre
Categorias: O Fantasma Da Ópera
Personagens: Christine Daaé
Gêneros: Death Fic, Drama, Romance, Tragédia
Avisos: Spoilers
Capítulos: 1 (1.692 palavras) | Terminada: Sim
Publicada: 16/10/2013 às 21:50 | Atualizada: 16/10/2013 às 21:50
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“The last act is bloody, however pleasant the rest of the play is:
A little earth is thrown at last upon our heads,
and that is the end forever.”
Blaise Pascal
Era arrepiante voltar àquele lugar, mesmo depois de tanto tempo. O mero ato de passar a rua em frente à antiga construção lhe trazia antigos arrepios que nunca mais achou que fossem lhe descer a espinha. Ela era velha agora. Não apenas idosa, mas realmente velha, sentindo os anos de experiência lhe pesando sobre os ombros, enquanto desejava inutilmente conseguir correr dali, e voltar a fingir que aquele lugar nunca existira. Logo aquele lugar, que tanto amava. E era para lá que rumava, decidida.
As lembranças eram por vezes claras e por vezes borradas - como se impressas sobre um papel antigo, já amarelo - e lhe atormentavam, como faziam há tantos anos. Mas o prédio antigo continuava com toda a sua indiscutível. Um tributo à beleza de um tempo que não voltaria mais, agora destoante em meio a todo aquele cenário mais moderno.
Ainda assim, ali se sentia ligeiramente mais jovem. Não com a energia sobressalente da juventude, mas com o ardor que o acelerado coração lhe trazia a face. Sentia sua pele pálida e enrugada voltar a enrubescer, e as lágrimas voltavam a beirar os cílios como há muito não faziam. Um sentimento não apenas de saudade ou de arrependimento, mas o mesmo sentimento de carinho que sentira tantos anos atrás.
A noite já passava do seu ápice e as nuvens cobriam o céu, peneirando a luz da lua e dando à rua o ar assombrado que ela aprendera a temer, mesmo que inconscientemente. Ela passou pela porta e seguiu a passos lentos, correspondentes a sua idade, pelos escuros e desertos corredores que ainda conhecia muito bem. Surpreendera-se com o quanto sentira falta de toda aquela familiaridade. Aquele fora o primeiro lugar em que descobriu seu talento, o primeiro lugar em que brilhara, o lugar onde tivera a sua primeira amiga, e onde conheceu o amor, em todas as suas formas.
Era confuso para ela estar ali, mas escolhera voltar a Paris por aquele motivo. Sabia que não podia mais atuar ou cantar como há tanto fizera, mas não podia imaginar o fim de sua vida se não ali, naquela cidade. A cidanicede das luzes, onde conhecera e se apaixonara pelas trevas. Onde aprendera que era possível admirar e temer a mesma pessoa. As crianças de hoje em dia, correm de zumbis e lobisomens... Não conhecem o verdadeiro medo, nem o verdadeiro amor.
Passou em frente às escadarias e circulou o edifício, procurando a entrada dos fundos, como fizera tantas vezes quando mais nova. A Ópera de Paris lhe havia servido de verdadeiro lar por anos a fio, e ela conhecia como sua própria casa cada centímetro daquele lugar intocado pelo feitiço do tempo.
Não conteve uma breve visita ao palco, para relembrar o auge de sua carreira, mas não pode visita-lo como gostaria. Percebeu que mesmo com o horário avançado, alguns trabalhadores ainda instalavam uma série de lâmpadas em uma barra de metal, e ela permaneceu nas sombras dos bastidores, tentando manter-se escondida. Era impossível não reviver ali as tantas apresentações que assistira e fizera parte, olhando para aquele palco mal iluminado. A música ainda lhe ressoava nos ouvidos, como nunca deveria ter deixado de ressoar.
Sentia-se transportada no tempo, ouvindo os passos apressados das produções e sentindo o cheiro do jantar, as massas por sovar sendo preparadas na cozinha para a celebração após os espetáculos.
Respirou e deixou que aquele sentimento a embalasse por pouco mais de um minuto, então deu as costas e fez o breve caminho para os seus antigos aposentos, torcendo para que permanecessem da mesma maneira. A última visita que fizera lhe dissera que não deveria se preocupar com mudanças, mas décadas depois isso não lhe dava uma verdadeira sensação de segurança. Seu coração deu um pulo quando chegou aos pés dos degraus que levavam à sua antiga porta, ainda lá, como sempre estivera. Ela não sabia que, com aquela idade, seu coração ainda conseguia saltar daquela maneira.
Ela subiu os degraus com cuidado, sentindo o corpo tremer mais do que de costume, e colocou a mão na maçaneta. Girou e respirou aliviada por acha-la destrancada. Com cuidado, abriu a porta e olhou para dentro. A escuridão e a miopia lhe atrapalhavam, mas ela percebeu que não havia ninguém no aposento. Deu mais passos inseguros e olhou a volta, lembrando-se daquela pequena sala iluminada como antes e repleta de flores. Agora, em retrocesso, ela sabia que nunca havia se sentido tão realizada quanto naquele dia.
Parou em frente ao espelho e respirou fundo. Mal conseguia ver sua imagem, mas a dele ainda estava lá, marcada para sempre em sua mente. A máscara branca que ela nunca deveria ter tirado. A máscara que escondia o verdadeiro rosto de seu ídolo, professor e - por que não? - amante. O homem que lhe aterrorizou e sequestrou, o homem que lhe ensinou a cantar a mais bela das canções e gritar o mais aterrorizante dos gritos. O rosto daquele que era, ao mesmo tempo assassino e professor, artista e monstro, anjo e fantasma.
Sentiu aquele antigo arrepio lhe percorrer o corpo quando forçou o vidro e o arrastou para o lado. A partir dali, sacou uma pequena lanterna que trazia na bolsa e iluminou aquelas escadas, outrora secretas. O piso ainda era úmido e os degraus estavam mais gastos do que ela lembrava. Naquele momento, lamentou com um riso abafado a falta de corrimãos. Apoiou uma das mãos na parede e mirou a luz para o chão, descendo com passos cuidadosos.
O caminho era longo, seus passos eram lentos e pesarosos, e sua emoção era imensurável. Nunca imaginara que estaria descendo novamente aqueles degraus, dando novamente aqueles passos e entrando tão profundamente o subsolo de sua antiga casa por uma última vez.
Ela não sabia quanto tempo levara para chegar, mas soube quando tinha chegado. Aquele fora o caminho pelo qual ele a conduzira pela primeira vez, e ela sabia que podia ser um dos poucos seguros de se percorrer, por mais longo que fosse. E quando ouviu as gotas pingando do teto e atingindo o lençol de água a sua frente, soube que podia respirar mais aliviada, sabendo que tinha tomado a decisão certa. Ela não poderia morrer sem revisitar aquele lugar.
Ela olhou a volta para a morada de seu antigo tutor, e não conteve as lágrimas que insistiram em voltar a cair. Seu antigo barco, ela viu, ainda estava no meio do lago subterrâneo. Percebeu que estava inclinado, em pé e meio afundado, como se a pouca profundidade tivesse abortado o seu naufrágio a meio caminho. Ela riu, pensando em o quão irritado ele ficaria com aquilo.
– Ele sempre fora tão perfeccionista e meticuloso... – disse ela, surpreendendo-se com a própria voz ecoando pela caverna, junto com os seus chorosos soluços.
O lugar lhe parecia estranho sem seu piano e seus instrumentos. Sem seus espelhos, suas armas e suas coisas. Ainda se lembrava de seu corpo ali, e de quando lhe devolvera o anel que ele lhe dera. Lembrava-se de seu vestido de noiva, de sua mais dolorosa escolha, e deu seu amor perdido e recuperado. Lembrava-se do beijo em sua testa fria e deformada, e das lágrimas que lhe escorreram pelas mãos.
Nunca fora capaz de entender o que sentira por ele. Seu pai e seu anjo, aquele que lhe prendera e lhe forçara a abrir mão de seu amor, e aquele que lhe amava tanto que sacrificara o próprio amor pelo dela. No fim, era um ser humano como todos os outros, e genial em si mesmo. Um grande escritor e compositor, e um incrível conhecedor da música em todas as suas facetas.Um gênio que o mundo perdeu, por não conseguir enxergar através da sua face deformada...Ela concluiu, culpada.
Ali, naquele lugar, com toda a sua idade lhe pesando nas costas e as lágrimas transbordando pelos olhos, ela finalmente entendeu tudo o que nunca entendera, e que lhe atormentara em pensamento por toda a sua vida. Ela admirara o anjo, e temera o fantasma, mas somente agora podia aceitar em paz que ela amara verdadeiramente aquele homem.
Sentiu algo que nunca sentira antes. Um calor dentro de si e um sentimento de claridade, como se toda a sua vida estivesse passado em frente aos seus olhos e todas as peças finalmente se encaixassem. Não podia dizer que se arrependia de nada, mas talvez tivesse feito algumas coisas diferentes, se tivesse a chance.
Nunca, porém, poderia se arrepender de ter cantado. Nem de tê-lo conhecido. Muito menos de tê-lo visto tão de perto. E toda a sua a vida ela devia a vida àquele homem. Ele não fora seu pai, seu marido ou o pai de seus filhos, mas ele lhe ensinara a usar aquilo que ela considerava a sua vida. Sua voz.
Finalmente, gritou.
Um grito alto, agudo, cheio de terror, angustia e melodia, mas também um grito de alivio e liberação. Sua voz ainda era doce, e ela se surpreendeu com o tom que conseguiu atingir, incrível para a sua idade. Soube ali, que seu tutor aprovaria, e se sentiria orgulhoso de sua tão amada pupila. E com um sorriso ela fechou os olhos, deixou-se deitar no chão, e ali ficou, sem mais levantar, deixando a musica da noite ecoar pelas cavernas embaixo da Ópera.
Seu corpo foi encontrado no dia seguinte por pessoas ligadas a Ópera, que encontraram os rastros do caminho da mulher. A descoberta agitou a cidade da mesma maneira que ele havia agitado tantos anos atrás. O jornal entrevistou os trabalhadores que lá estavam àquela noite, instalando uma nova gambiarra* no palco e eles relataram que ouviram, pouco antes de terminar o serviço, um grito alto, forte e agudo, mas indiscutivelmente musical, mas que não sabiam dizer de onde viera.
Ela nunca soube que a sua morte traria de volta à vida seu antigo e falecido tutor, mas aquele incidente seria para sempre lembrado como “O Último Ato do Fantasma da Ópera”.

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