... um dia nós não sentiremos mais essa dor escrita por BlackSwan
Sinopse: Ele queria que aquela noite fosse diferente das demais. Conseguiu uma dispensa mais cedo do trabalho, porque algo estava diferente dentro dele. Chegou em casa, mas já estava tão na rotina, que nada mudou. Acabou fazendo o mesmo de sempre. Mas o mesmo acabou saindo caro demais!
Classificação: +13
Categorias: Originais
Personagens: Personagem Original
Gêneros: Angst, Death Fic, Tragédia
Capítulos: 1 (1.188 palavras) | Terminada: Sim
Publicada: 04/10/2013 às 00:59 | Atualizada: 04/10/2013 às 00:59
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Ele sabia que estava a trabalhar demais e ter tempo de menos. Sabia que a ascensão em sua carreira teria um preço. O preço era justamente o movimento contrário em sua vida pessoal. Ele sabia que tudo o que a vida dá, ela lhe cobraria algo em troca, mas não sabia que, às vezes, as coisas poderiam custar-lhe mais caro do que realmente se acreditava valer.
Naquele dia ele havia chegado mais cedo do trabalho. Cansado, afrouxou o nó da gravata e pôde respirar aliviado. Depois de tanto tempo com rotina integral, finalmente conseguiu um fim de semana normal. Quanto tempo faz mesmo, já não se lembrou de quando foi a última vez que trouxe um pequeno presente para a amada, ela provavelmente amará esse bracelete, porque ela gosta de joias, embora preferisse o tempo com ele.
Era tarde da noite – mesmo que não tão tarde quanto o habitual – e a necessidade de um banho, sobretudo, um carinho de sua mulher... Era anormal. Tirou os sapatos apertados e junto com eles as meias pretas e suadas. Jogou-as sobre o sofá, mas lembrou-se o quanto ela odiava que ele fizesse isso, então, escondeu-as debaixo de uma das almofadas.
Subiu como se fosse uma máquina as escadas; ponta por ponta dos pés seguiu os degraus, lentamente, para que não fizesse barulho algum. Primeiro um, depois o outro e assim se contou intermináveis outros quatorze degraus. Respirou aliviado, quando estava no corredor do quarto do casal. Mas antes abriu a porta do quarto do filho lentamente e em passos leves aproximou-se e depositou um beijo carinhoso e paterno na testa do menino de doze anos, que dormia com uma expressão triste.
Você é o orgulho de papai, mesmo que não soasse em palavras. E o menino realmente era. Era bom em matemática e em português; entendia de geografia e amava história, sobretudo, afundar-se no passado. Mas nada se comparava a paixão por química; o garoto teria um futuro promissor; durma bem, meu anjo, sussurrou no ouvido da criança, que remexeu-se, porém, não acordou.
Saiu do quarto meio triste, meio desconexo. Ele sabia a razão da tristeza da criança, mas negou-se a acreditar que realmente fosse aquilo. Esforçava-se para dar um bom futuro a ele e uma boa vida a mulher. Trabalhava de domingo a domingo e dormia pouco, comia pouco, ria pouco, conversava pouco e dizia tão pouco que os amava. Às vezes, ele nem dizia. Quando tudo isso havia começado, ah!, quando o meu filho nasceu e eu era um fracassado e ele se perdido tanto e caído de um abismo?
Agora foi a vez do próprio quarto. Parou em frente a porta e suspirou mais uma vez. Segurou a maçaneta e ouviu o estalo do trinco abrindo-se. Empurrou lentamente até ter espaço o suficiente para passar pela brecha. Fechou a porta atrás de si, da mesma forma que abriu-a: cauteloso. A mulher dormia. A face dela em muito lhe lembrou da que vira minutos antes, do filho. Ele caiu mais um pouco naquele buraco escuro, solitário. Tomou o ar e caminhou inaudível até à beira da cama. Sentou-se sobre o colchão e beijou a testa da mulher, que gemeu e abriu os olhos. Abriu-os, mas meio incrédula, meio insegura, meio sem porquê ou meio sei lá. Olhou o horário no relógio da cabeceira e sentou-se ao lado dele.
— Eu não queria acordá-la, minha querida. — tentou dizer com um sorriso na voz.
— Ainda é cedo. — ela coçava os olhos. — É raro vê-lo tão cedo em casa. — mas a voz dela ainda era triste, ainda machucava, ainda o fazia pensar em como havia chegado até aquele ponto.
— Finalmente terei uma folga. — empolgou-se. — Não é mágico?
Ela ainda dormia um pouco ou não tinha noção. A camisola branca lhe cai bem, ele pensou, mas não disse. E era sempre assim. Pensava, elogiava, dizia que amava, sorria e brincava, porém, sempre em sua cabeça, sempre sozinho, sempre pra ele, às vezes, nem dizia para si próprio, mas mais tarde pensava.
— Que ótimo, querido. — mas ela não sorriu, não o abraçou e nem disse que o amava. Ela apenas estava ali, meio sem porquê; meio sei lá, estar por estar. — Mas marquei com a mamãe de leva-la ao médico. Não sabia que viria para casa e que estaria de folga amanhã. — justificou-se. — Faz muito tempo que isso não acontece.
Ele despencou mais um pouco. Quase podia tocar o fundo escuro de um buraco que só existia no coração dele. — Tudo bem. — mas não estava bem. Há muitos anos não estava bem; apenas estava, ficava, sorria pouco e reclamava muito. — Tomarei um banho.
— Não se demore para dormirmos.
E ele foi para o banheiro. Meio no quarto, meio no trabalho; meio decepção e meio chateação. Era meio não muita coisa e meio cabeça cheia de tudo um meio. Estava tão meio em outro mundo, que sequer se lembrou do bracelete. Ele também não se lembrou que faria vinte e cinco anos de casado naquela noite. Ela não se lembrou e ele não foi lembrado ou talvez não fosse mais tão importante quanto era antes.
Tirou a roupa com desânimo e jogou-a em qualquer canto do banheiro apertado, é mesmo, eu tenho que pagar a reforma daqui. A cabeça dele estava meio no quarto do filho, meio na mulher e meio no próximo salário que receberia depois de mais um mês cheio; meio em muitos lugares, mas talvez não estivesse no próprio pescoço (se isso lhe fosse possível ser).
Entrou na banheira – após cheia – e a água gelada lhe doía um pouco do corpo cansado. Fechou os olhos e nem sentiu quando as primeiras lágrimas começaram a misturar-se com a espuma. Porque ele não sentia nada, não sabia nada, mas ainda sabia o que era aquela dor (a dor é muito mais do que sentir, é ser a dor, tornar-se dor).
Da mesma maneira que ele deitou na banheira, não mais levantou. Chegou mais cedo; beijou o filho e a mulher, mas mais uma vez ele não havia dito nada, não havia expressado nada, sorriu pouco, pensou demais e sequer disse adeus. E lá ele passou a noite – porque ninguém se lembrou que ele havia chegado mais cedo – sozinho, calado como sempre fora, com a face triste que tanto desprezava no espelho; e a vida nele era nada; nada mais podia julgá-lo e nada mais podia atingi-lo. O corpo ficou frio como a água que ele se banhou entre as nuvens de espuma, mas as lágrimas ainda escorriam face abaixo, junto ao sangue que lhe escorreu aos cantos dos lábios.
E mais uma vez o silencio era nada senão um detalhe permanente, naquela noite em que ele chegou mais cedo. Mas o mais cedo que ele chegou, já era tarde demais para a vida que ele queria ter tido. E naquela banheira ele se tornou o nada e apenas mais uma peça no show maior chamado vida. E a vida fechou as cortinas e ele foi apenas mais um personagem que viveu de nada. E morreu por nada.

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